Magnata amealhou jornais pelo mundo e conquistou influência política até caso dos grampos manchar sua biografia
Milionário herdou, em 1952, seu primeiro tabloide do pai, tido como o publisher mais poderoso da Austrália
NELSON DE SÁ
ARTICULISTA DA FOLHA
Em cena aparentemente não ensaiada de seu depoimento no Parlamento britânico, na terça, o magnata Rupert Murdoch declarou, pouco antes de ser atacado: "Eu só queria dizer que fui criado por um pai que não era rico, mas era um grande jornalista, e ele, antes de morrer, comprou um pequeno jornal, dizendo em seu testamento que estava me dando a chance de fazer o bem. Eu me lembro do que ele fez, pelo que ele foi odiado neste país por muitos, muitos anos, que foi expor o escândalo em Gallipoli, e do que eu continuo muito, muito orgulhoso."
Seu pai, Keith Murdoch, revelou como os comandantes britânicos enviaram à morte milhares de soldados australianos na batalha contra as forças turcas na Primeira Guerra. O episódio é "mito de origem" da Austrália, onde nasceram Keith e Rupert.
Quando morreu, em 1952, o pai deixou para ele o tabloide "News". Pouco antes, Rupert, aos 21, havia trabalhado em outro jornal popular, este inglês, "Daily Express", no coração da imprensa londrina, Fleet Street.
O fim do londrino "News of the World", há duas semanas, e o cerco dos parlamentares ingleses reavivaram a memória de Rupert, 80.
Como descreve a biografia "O Homem que É Dono da Notícia" ("The Man Who Owns the News", 2008, US$ 11,99 no Kindle), de Michael Wolff, "ele é um homem de jornal", que tem a imprensa por "monomania" e cujo estilo, "tabloide para trabalhadores", deriva das primeiras experiências no ofício.
Mas é só parte da história. Seu pai não era milionário, mas foi "o publisher mais poderoso da Austrália", comandando outros jornais cujo controle só foi perder pouco antes de morrer. Chegou a levar o filho, então 19, para um fim de semana na casa de campo da família Sulzberger, dona do "New York Times".
Inglaterra e EUA, com suas dinastias de imprensa, se tornaram cedo uma obsessão. Daí talvez a lembrança do pai e de Gallipoli, história narrada no célebre filme de 1981, dirigido por Peter Weir e co-produzido por Rupert.
De acordo com Wolff, jornalista que chegou mais perto do magnata, fora da folha de pagamento, Murdoch se considera um "agente de mudança", provocador, até pirata. Nas festas de poder em Nova York, fica isolado. Não tem amigos, é "muito ocupado". Um ex-editor do "Times" o descreveu nos anos 80 como "aleijado pela timidez".
Ao assumir o "News", lançou-se contra a concorrência australiana. Em poucos anos, acumulou uma cadeia de jornais regionais e, em 1964, lançou o primeiro diário de âmbito nacional no país, "The Australian". E estreou nas alianças políticas, com os trabalhistas australianos.
Em menos de cinco anos, voltou a Fleet Street para comprar o "NoW", depois o "Sun", mais tarde o "Times". Nos EUA, comprou o "New York Post" e iniciou o cerco ao "Wall Street Journal", que conquistou há quatro anos.
Trocou favores com conservadores e trabalhistas, no Reino Unido, e com republicanos e democratas, nos EUA. Adquiriu estúdios em Hollywood, naturalizou-se americano para entrar em TV, avançou por China e Índia.
Era visto como "imortal" na News Corp., até o repórter Nick Davies revelar que o "NoW" invadiu e apagou mensagens de uma garota de 13 anos, sequestrada e morta. O biógrafo Michael Wolff informou, anteontem, que foi convidado para preparar um documentário "obituário" sobre Rupert Murdoch.
(http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft2407201116.htm)